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António Espinha

Abutres


A noticia que o carrasco grande tinha caído tardou alguns dias a chegar à populaça. Os vendavais e ciclónicos, tempestades de por os nervos em franja tinham decorrido havia semanas estava tudo ensopado, os prados transformados em sopa verde com o branquinho dos orvalhos à superfícies. Os lameiros estavam como charcas. Os agricultores e ganadeiros iam ao campo a medo de enterrar as pickups, levavam comida e ficavam confortavelmente dentro das cabinas à espera de que as gotas escorressem pelo vidro, parados mastigando e perdidos nos riscos que as gotas deixavam. E ninguém explorava o territorio, enquanto continuasse a ameaçar ou a chover a potes.


Mas uma clareira meteorológica de tempo instalou-se sem pedir licença pois os anticlones pararam de rodar sobre o atlantico, as treguas das cordas de agua pararam e vieram 2 ou 3 dias de tempo ameno temperado como nos trópicos e trazendo uma brisa suave e cheia de sudoeste amainou os campos e levantou o moral. Os peões, apanhadores de cogumelos e tudo o que aparecça, os deamboladores, os campeadores errantes, logo detectaram a grande copa, qual trunfa grisalha de uma velha trigueira tombada de lado. A grande azinheira estava caída, bolcada …. e a noticia correu rápida por aquelas aldeias da raia, de boca em boca entre sorvos gordos de cerveja no bar à luz azulada e sobre o balcão entre relatos de avaria de tractores, conversas sobre futebol e partidos, píadas entre feitores e tractoristas, foi-se comentando e especulando acerca das carradas de lenha que ali deviam estar,


A árvore bem conhecida por ser um marco dissonante na planura cinzentatinha quebrado perante os ventos dois que punham os fios da eletricdade a uivar, por muito que parecesse uma enorme rocha negra tinha os troncos enormes podres por dentro, , e assim a mair de todas as azinheiras da quinta dos pedregais nem dobrou nem vergou estalou de noite sem ninguém ouvir, partiu e agora esvam ali mais de 5 toneladas de lenha.


A árvore com raízes entaladas numa lage granítico, tombou para uma pequena ladeira e ficou sem grande acesso para os tractores ou carrinhas de tração, de modo que o maioral da quinta sabendo do esforço herculeo que era tirar aquele gigante da encosta remota anunciou aos sete ventos e mais aos amigos que árvore era de quem a fosse buscar, de preferência alguém amigo do dono e do feitor a que haveria que retribuir com algum favor, lá para à frente e quando fosse tempo de cegas ou de vindimas


Em apoio ao maiorial havia 2 tractoristas, homens secos e parcos de falas e apesar de em posição subalterna eram muito considerados, e assim a escolha foi fácil e recaiu no mais afoito, um homem de tez negriça, rugas na testa e boina vaqueira cossado, que em cima do tractor parecia uma toiro mas cá em baixo era um baixote de torso curvado sempre a tossicar fora os dois maços que deglutia diaramente. mas com força para dar e vender. Este pediu entao ajuda aos 2 cunhados, homens da mesma estatura que ele, secos e gretados de trabalhos campestres sem fim, sem nunca usarem guarda sol ou guarda chuva, e assim gente temperada por dentro e por fora na faina do apanha e rebusco. Ficou marcada a façanha de irem sacar aquela grossa remessa de lenha barata para nos fins de semana.


No sábado pela matina ainda o sol apático de fevereiro se não assomava, lançavam-se violentos, às motosserras que roncavam, mal afiadas, até ao limite dos decibéis, agudos depois graves e depois tarataatatataaaa, …. o dia inteiro no ao limite das forças e com as máquinas prestes a quebrar os pistões com a quentura. Assim extenuados lá foram trazendo cepa a cepa, ferindo as mãos com as águas frias, areias e silvados picando com as suas agulhas, tropeçando nos poios, mas sem desanimar.


Atiravam-se como abutres sobre a carcaça que pouco a pouco foi minguando, ruidosos os 3 vultos negros saltavam e moviam-se de um lado e para o outro e foram despedaçando o arvoredo, estilhaçando as madeiras, cortando-o , decepando-o, até que ficaram apenas as cascas espalhadas no solo, as ramas viradas do avesso e o que restava do toco branco estilhaçado como mais uma fraga.



Ao final de tarde era ver os tractores carregados de cilindros de lenha, atarracados e torpes, roncavam e lentos abanavam quase a deixar cair o espólio. À aldeia chegaram já ao lusco-fusco. Pararam as máquinas à beira do café para mostrar as cargas, os homens erguiam-se a custo na posição bipede, a esticar o esqueleto para fazer 2 dedos de conversa com os vultos escuros dos outros aldões. Sentiam-se cansados mas renovados. Ali no terreiro, os necrofagos, recolectores xilófagos eram então consagrados em heróis aventureiros da Raia, heróis neste final de Domingo.